Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

POR ENTRE OS DEDOS




Deixámos um rasto
fluorescente no escuro
para as aves se guiarem

Quase indecifráveis
marulhámos sussurros
sem preocupações de chamar
grandes nomes às coisas

No princípio éramos assim
polidos como seixos
tão perfeitos
que ainda hoje temos o rosto
esculpido na água

Com a noção clara das noites
brincávamos com as sombras
desenhávamos garatujas
em todos os mastros
soprávamos o vento

Quando demos mais um passo
para ultrapassar o tempo
obsessivos pela lonjura
recolhemos a outra dimensão
dos teus cabelos brancos
à solta
por entre os dedos

Sábado, 4 de Julho de 2009

PARA LÁ DO AZUL


Aqui tão perto dos infinitos
no ponto mais distante do deserto
presos por um fio
a meio da ponte
ainda hoje celebramos
as margens
para escrever no azul
metáforas trabalhadas na água
palavras brancas

Ainda hoje
temos o corpo dividido
em pequenos deuses
mas quando partimos
num barco em flor
sonâmbulos como potros
do chão firme das espumas
erguem-se aromas incríveis
na mais transparente verticalidade

Descobrimos
que para lá do azul
talvez ainda seja mar

Domingo, 28 de Junho de 2009

O TRANGALHADANÇAS

olbinski

A pedido dos monges da Arrábida foi construída uma fortaleza para proteger o litoral. A vida pode ser uma surpreza. A fortaleza, hoje museu oceanográfico é uma referencia no corpo da serra.

Deslumbrados com o património florístico e os monumentos geológicos deste sopro da natureza, percorremos magestosas paisagens na bio-diversidade deste ecossistema.

Desaguámos na enseada do Portinho, numa das mais belas baías do mundo, no espaço poético de Sebastião da Gama.

A doce Arrábida debruça-se abrupta em madeixas de verdes até afagar o rio azul, à vista de roazes e finíssimas areias.

Na esplanada de um restaurante, com os olhos nos olhos dos peixes e dos albatrozes, distribuíamos miolo de pão, saboreávamos salmonetes, nascidos, crescidos e baptizados no Sado.

Não fora a exploração desastrosa da alma e do corpo da serra para a produção de cimentos, uma ferida que sangra os olhos, mais a recente memória da incineradora de lixos tóxicos em nome do mercado de capitais, estaríamos sem máculas num pulmão que respira.

- A serra queixa-se do trangalhadanças.

Na mesa ao lado um sujeito de cabelo grisalho e nariz ponteagudo, tresandava a brilhantina. Levantou um braço, limpou-se a um guardanapo de papel e questionou-nos com voz falsete.

- Trangalhadanças? Estão a falar comigo?

- Naturalmente sr engenheiro.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

À PERGUNTA DO MAR



Estava com os olhos presos
no espelho do rio
quando as margens
se moveram
com aves a acenarem
famintas de um sinal
para fluirem

Das águas submersas
o coaxar dos remos
regressou à tona

Os saveiros passaram
a andar num rodízio
de memórias

Bastou libertar um pó
para desprender os olhos
partir para a faina

à pergunta do mar

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

ROTA NAVEGÁVEL



Não sabíamos que os rios
podiam cair dos céus
sem deixarem de ser água
mas quando te vi
tão livre líquida quase humana
a moldar arestas
vesti a pele das aves
para descobrir o sentido do voo
a voz abrupta dos violinos

Adentro prisioneiros com destino
num instante de chuva
a desaguar por sobre as pedras
eternos e frágeis
compreendemos o sopro do vento
contra o vento

começámos a construir
a pulso
gota a gota
uma rota navegável